De Chur a Tirano: comboios, bilhetes e locais a visitar
Viajei por uma das mais bonitas rotas panorâmicas da Suíça e que é património mundial da UNESCO. O comboio Bernina percorre a ferrovia de montanha mais alta dos Alpes, entre a Suíça e a Itália.
Fiz o passeio no sentido Chur (Suíça) a Tirano (Itália). O trajeto completo são aproximadamente 4 horas e 40 minutos.
As paisagens pelo caminho são espetaculares, passando por cenários montanhosos, bosques, lagos e glaciares. Tudo isto acompanhado pela surpresa de observar as várias manobras de engenharia que esta linha ferroviária permite o comboio realizar.
Nesta publicação partilho todas as informações que precisa para realizar esta viagem. Dicas que vão ajudar a escolher entre o comboio express ou regional, como comprar o bilhete e algumas sugestões de paragens pelo caminho.
Comboio express ou regional?
Para percorrerem esta magnífica rota terão de optar entre o comboio regional ou o express.
O comboio express é o verdadeiro comboio Bernina que aparece nos postais e é o mais divulgado e confortável. É um comboio panorâmico com janelas maiores, mas que não dão para abrir. É mais aconselhado a quem pretende fazer apenas o passeio panorâmico sem paragens porque para além do bilhete é obrigatório a reserva de lugar que é paga e dá apenas para o horário reservado. Existem entre 2 a 3 horários por dia, dependendo da altura do ano. Se optarem por este comboio devem comprar o bilhete e reservar o assento com alguns meses de antecedência porque costuma esgotar. Reservei a minha viagem com três meses de antecedência e já não havia lugar neste comboio.
O comboio regional não tem a designação Bernina, mas faz o mesmo trajeto e sai praticamente a todas as horas. Não é necessária reserva de assento e nos comboios mais modernos a primeira carruagem é panorâmica e dá para abrir as janelas. Neste caso podem comprar o bilhete direto ou com possibilidade de saírem nas várias estações ao longo do trajeto. É um comboio mais simples, mais barato e que permite tirar fotografias sem a sombra do vidro.
Na minha viagem não me limitei apenas ao passeio panorâmico e realizei algumas paragens. Optando pelo comboio regional ficou mais barato e com o bónus de poder visitar vários locais ao longo da rota. Desta forma ocupei o dia todo com este passeio.
Rota Bernina:
Existem duas versões no trajeto da rota Bernina. O trajeto completo é entre Chur e Tirano.
Também existe a possibilidade de fazer apenas o trajeto entre Tirano e St Moritz. Durante a viagem percebi que esta versão é a mais concorrida e para quem quer visitar a Suíça sem pernoitar na Suíça.
No meu caso optei pelo trajeto completo porque a minha viagem foi estruturada para começar na Suíça e terminar na Itália, tendo de comprar a viagem apenas num sentido.
A minha experiência nos comboios foi diferente consoante os trajetos. De Chur a St. Moritz foi uma viagem muito tranquila com várias carruagens sem passageiros, silêncio e comboios modernos. De St. Moritz a Tirano os comboios eram mais antigos e estavam cheios com pessoas em pé e a falar alto. Isto acontece porque a maioria das pessoas faz a viagem de ida e volta até St. Moritz a partir de Tirano. No comboio regional também são dadas informações históricas e geográficas ao longo do percurso.
Como comprar o bilhete?
Existem vários sites que disponibilizam os bilhetes com diferentes preços.
Comprei os bilhetes diretamente à empresa Rhaetian Railway que gere a ferrovia Bernina. O primeiro passo é instalar a aplicação SBB que permite verificar os detalhes da rota, horários e compra dos bilhetes.
Na aplicação basta inserirem o local de partida e destino, a data, a classe em que querem viajar e o tipo de bilhete.
O comboio panorâmico aparece com a designação PE e o regional é o IR, R ou RE.
Na seleção do bilhete têm duas opções:
- Point to point ticket: é válido para o dia selecionado para viagens entre o ponto de partida e de chegada, ou seja, com este bilhete podem durante o dia sair nas várias paragens ao longo do caminho no sentido selecionado até às 05h. Por exemplo, num bilhete entre Chur e St. Moritz podem sair nas várias estações (Filisur, Bergun, etc.) antes de chegarem a St. Moritz. Só não podem voltar para trás e inverter o sentido.
- Supersaver ticket: é válido apenas para a viagem na data e horário selecionado, não sendo possível alterar a rota ou comboio usando este bilhete. Normalmente só estão disponíveis para compra com alguma antecedência. Este bilhete é recomendado para quem quer poupar, não pretende fazer paragens pelo caminho e quando se tem a certeza que vai viajar num horário específico.
No caso de fazer a viagem de ida e volta pode ser uma opção comprar o bilhete supersaver para a ida e o point-to-point para o regresso.
Na minha viagem eu dividi a compra dos bilhetes em duas viagens porque a viagem entre Chur e Tirano obrigava a mudar de comboio e não parava na principal estação de St. Moritz. Como queria visitar St. Moritz comprei um dia antes o bilhete point-to-point entre Chur e St. Moritz. Em St. Moritz comprei o bilhete até Tirano.
Para quem possui o “swiss travel pass” esta viagem está incluída para os dois tipos de comboios, mas no panorâmico têm sempre de pagar a reserva de lugar. A compra deste passe compensa se viajarem mais de dois dias em transportes públicos pela Suíça. Mais uma vez a simulação das viagens pela aplicação permite fazerem as contas se vale a pena para o vosso roteiro.
Partilho também outras sugestões de bilhetes e tours a partir de Tirano, St. Moritz ou Zurique. Uma delas inclui o transporte no comboio durante dois dias de forma a pernoitar num dos locais do percurso. São opções igualmente interessantes.
Locais a visitar:
Independentemente de iniciarem a viagem em Chur ou Tirano, aconselho a aproveitarem a possibilidade de sair em algumas estações ao longo do caminho, como por exemplo: Filisur, St. Moritz, Alp Grum e Poschiavo.
Chur:
Fiz este passeio no final de abril e optei por passar a noite anterior em Chur, a mais antiga cidade Suíça, para começar a viagem ao início da manhã.
→ Mais informações sobre o que ver e fazer em Chur
O início do percurso é marcado por paisagens verdes após a saída da cidade. O comboio passa pela região com maior densidade de castelos na Europa, em direção ao Vale de Albula.
Um dos momentos mais esperados era a passagem pelo viaduto Landwasser. A história de como o viaduto foi construído é impressionante para a época. Construído em 1901 com 142 metros de comprimento e 65 metros de altura, este viaduto conduz a linha férrea numa curva sobre o vale até um túnel numa encosta rochosa.
Filisur:
Após a rápida experiência de passar pelo viaduto como passageira do comboio, decidi fazer a primeira paragem e sair na estação Filisur com o intuito de avistar o viaduto de outra perspetiva
Em Filisur existem dois miradouros com percursos diferentes para ver o viaduto e também um percurso para chegarem junto ao viaduto. Escolhi fazer o percurso até à plataforma sul de observação do viaduto. É o mais próximo e são vinte minutos de caminhada.
Depois foi aguardar pelo momento em que o comboio passa o viaduto e simplesmente desaparece na montanha. Parece magia e não admira que seja a atração mais fotografada do Cantão dos Grisões.
Também podem optar por ir até à plataforma norte, mas são cerca de 45 minutos de caminhada, ou ir até debaixo do viaduto se escolherem o percurso de 1 hora.
Bergun:
De regresso à estação a viagem continuou com paisagens incríveis ao passar por Bergun. Em Bergun podem visitar o museu ferroviário de Albula.
A altitude foi aumentando e estava cada vez mais próxima das montanhas totalmente carregadas de neve. Apesar da temperatura negativa, para mim não havia outra hipótese se não contemplar tudo com a janela aberta.
Depois de vários túneis helicoidais cheguei à próxima paragem.
St. Moritz:
St. Moritz é uma estância alpina que é o berço do turismo de inverno alpino. É considerado um dos destinos de inverno mais luxuosos do Mundo.
Localizado a 1856 metros acima do nível do mar, no inverno são as pistas de ski a sua principal atração e no verão as águas medicinais enquanto estância termal.
A estação de comboios fica ao lado do lago. Andei até ao Parkhaus Serletta que é um parque de estacionamento que tem uma escada rolante e que também é uma galeria de arte. Esta escada liga a zona do lago à parte mais alta com o centro histórico.
O seu centro histórico tem as tradicionais casas de Engadin e concentra várias lojas de luxo.
O centro histórico é pequeno e vale a pena passear pelas ruas, apreciar a arquitetura dos edifícios e admirar-se com a Leaning Tower que por ser inclinada é apelidada de pequena torre de Pisa da Suíça. É a construção mais antiga da cidade, do século XII.
Visitar St. Moritz também pode ser sinónimo de degustar o chocolate suíço. A chocolataria Laderach tem chocolate para todos os gostos e é uma visita imperdível.
Depois de visitar o centro fui até ao lago que ainda estava meio congelado. Sem dúvida que a melhor parte da minha breve passagem por St. Moritz foi caminhar junto ao lago com vista para as montanhas. Por ali existem vários bancos para sentar e simplesmente contemplar a paisagem.
Ospizio Bernina e Alp Grum:
A viagem prosseguiu até Ospizio Bernina que é a estação com maior altitude (2523 metros) e depois Alp Grum. Esta parte do percurso foi sempre com queda de neve. Se pretenderem sair nestas paragens e forem no inverno ou primavera, recomendo que estejam preparados com calçado e roupa adequada porque nestes locais a principal atração é a neve nesta época do ano.
Poschiavo:
A próxima paragem foi em Poschiavo. A capital de Valposchiavo é uma pequena cidade Suíça situada num vale e cercada por montanhas. Apesar de ter um ambiente alpino já se sente a influência italiana.
Esta pitoresca e pequena cidade conta com ruelas e vários edifícios históricos. Dá a sensação de se estar na Itália, mas ainda estando na Suíça.
Foi mais uma paragem na rota da linha ferroviária Bernina onde tive a oportunidade de passear pelas estreitas vielas e praças coloridas com interessantes palácios e monumentos culturais.
A viagem continuou passando pelo Lago de Poschiavo e depois a fronteira até Itália. O viaduto circular de Brusio permite baixar a altitude e é mais um ícone desta linha férrea que termina em Tirano.
Tirano:
Tirano é uma cidade italiana emoldurada pela beleza natural das montanhas dos Alpes, na região da Lombardia. Fica a 2 Km da fronteira com a Suíça e é também conhecida como a cidade do Bernina por ter sido esta rota de comboio que a tornou turística.
Em Tirano existem duas estações de comboio. Ficam ao lado uma da outra. A FS faz as viagens para a Itália e a RhB para a Suíça.
Quando cheguei a Tirano os principais pontos turísticos já estavam fechados, mas não deixei de dar uma voltinha pelo centro. A cidade é atravessada pelo rio Ada e várias pontes ligam a parte nova ao centro histórico. Com um ambiente medieval o seu centro tem vários palácios históricos.
A minha curta viagem pela Suíça terminou com a chegada a Tirano onde pernoitei no Albergo Stelvio para no dia seguinte continuar a viagem pela Itália.
Recomendo muito esta experiência no comboio Bernina e principalmente a viagem completa. Se tivesse feito apenas metade do trajeto acho que não teria sido tão impactante e desta forma não tive de fazer a viagem de ida e volta.
A sintonia entre o comboio, a linha férrea e a paisagem envolvente valeu o seu reconhecimento como património mundial da UNESCO.
Foi um dia longo com a certeza de ter sido uma das melhores experiências para contemplar a beleza dos Alpes.
*Todas as referências a preços basearam-se na minha experiência no ano de 2024.
Encontra mais informações e dicas dos vários locais por onde passei nesta viagem nas seguintes publicações:
- Roteiro da Suíça à Itália – 6 dias
- 1 dia em Zurique
- Maienfeld e Heididorf
- Chur: a mais antiga cidade Suíça
- Visitar o Lago de Como
Boa Viagem!